Páginas

Cabeço de Montachique | Referências Literárias

Gravura do Palácio e Convento de Mafra - Fachada Principal | 1832
D. Roberts



O Cabeço de Montachique encontra-se referido nalgumas obras literárias, destacando-se o famoso Memorial do Convento, de José Saramago. Além, dos espaços geográficos de Lisboa e Mafra, que se assumem como protagonistas, existem outros, que além de complementares, desenrolam o fio condutor da narrativa, sugestionando percursos entre os diversos palcos da história.



Encontramos por isso algumas referências a Évora, Montemor, Pegões, Aldegalega (locais por onde Sete-Sóis passa, depois de regressar da guerra, no seu percurso até chegar a Lisboa), à serra do Barregudo, ao Montejunto, a Pinheiro de Loures, a Pêro Pinheiro (local onde os homens vão buscar a brutesca brutesca pedra para o convento), a Cheleiros, Cheleiros, Torres Vedras, Leiria, à região do Algarve, Alentejo e Entre-Douro-e Minho, e finalmente, ao Monte Achique (terminologia antiga, e relativa ao Cabeço de Montachique), conforme podemos observar: 


"(...) o derrubamento das árvores no pinhal de Leiria e nos termos de Torres Vedras e Lisboa, os fumos diurnos e nocturnos dos fornos de tijolo e cal que entre Mafra e Cascais são centenas, os barcos que outros tijolos trazem do Algarve e de Entre-Douro-e-Minho e os vão descarregar, Tejo adentro, por um canal aberto a braço, ao cais de Santo António do Tojal, os carros que por Monte Achique e Pinheiro de Loures trazem estas e outras matérias ao convento de sua majestade (...)" 


em, Memorial do Convento, José Saramago

 


Ainda no livro, encontramos o seguinte trecho, aquando da passagem do cortejo por Fanhões: 


"(...) Em Fanhões parou o cortejo porque os moradores quiseram saber, nome por nome, quem eram os santos que ali iam pois não é todos os dias que se recebem, ainda que de passagem, visitantes de tal grandeza corporal e espiritual, uma coisa é o quotidiano trânsito dos materiais de construção, outra, poucas semanas há, o intérmino cortejo dos sinos, mais de cem, que hão-de rebimbar nas torres de Mafra a imperecível memória destes acontecimentos, outra ainda este panteão sagrado. Foi o pároco da terra chamado à ciceronia, mas não soube dar boa conta do recado, porque nem todas as estátuas tinham visível o nome do pedestal, e em muitos casos por aí se ficaria a ciência identificadora do padre, uma coisa é ver logo que este é S. Sebastião, outra seria dizer, de cor e salteado, Amados filhos, o santo que aqui estão vendo é S. Félix de Valois, que foi educado por S. Bernardo, que vai lá à frente, e fundou com S. João da Mata, que aí vem atrás, a ordem dos trinitários, a qual foi instituída para resgatar os escravos das mãos dos infiéis, vede que admiráveis histórias se contam na nossa santa religião, Ah, ah, ah, ri o povo de Fanhões, e quando é que vem a ordem para resgatar os escravos das mãos dos fiéis, ó senhor prior. Vistas as dificuldades, foi o padre ao governador deste transporte e pediu consulta dos papéis de exportação que tinham vindo de Itália, subtileza que lhe valeu recuperar a abalada credibilidade, e então puderam ver os moradores de Fanhões o seu ignorante pastor, alçado sobre o muro do adro, pregoando os benditos nomes pela ordem que iam passando os carros, até ao último, por acaso era S. Caetano, levado pelo José Pequeno, que tanto sorria aos aplausos como ria de quem os dava. Mas este José Pequeno é maligna criatura, por isso o puniu Deus, ou o Diabo o puniu, com a corcova que traz às costas, háde ter sido Deus o do castigo, porque não consta que tenha o Diabo esses poderes em vida do corpo. Acabou o desfile, segue a santaria para Cabeço de Monte Achique, boa viagem (…)"


em, Memorial do Convento, José Saramago 



Carlos Costa Rodrigues 

Sem comentários: