Vista área das ruínas do Sanatório Albegaria Grandella | 2020
Joana Braga
Para quem mora no Cabeço de Montachique, as ruínas do Sanatório Albergaria Grandella, fazem parte do imaginário de qualquer um. Desde pequenos, que sem compreender efetivamente o que aquele espaço representa, assumimos que estamos perante um castelo. O nosso castelo. A nossa identidade coletiva, que se amarra numas pedras que moldaram a nossa
Perante isto, deixo-vos o meu parecer sobre o assunto (neste caso, a demolição das referidas ruínas) na segunda parte desta publicação, que emiti a 13 de março de 2020. São apenas 5 minutos de leitura, mas muitos mais de esperança, de que se salve a nossa história comum.
Pela Defesa das Ruínas do Sanatório Albergaria Grandella
Quando falamos de património construído, muitas são as correntes e opiniões, que podem orientar o destino de algo. Como quase em tudo, haverá sempre várias perspetivas e pontos de vista, que a certo momento, podem colidir, ou não, na finalidade. As ruínas do Sanatório Albergaria Grandella, em Tocadelos, na freguesia de Lousa, no concelho de Loures, é um desses casos. Tem-se assistido, à utilização de argumentos, de um lado e de outro, a favor ou contra a sua demolição. Muitas das vezes com pouco rigor histórico-científico. Numa declaração de interesses imediato, aqui, opta-se pela defesa das ruínas do Sanatório Albergaria Grandella, e, por conseguinte, tentar evitar a sua demolição.
Apenas a título informativo, sublinha-se a falta de interesse de associações públicas ligadas à questão do património e do ambiente, tão ativas até 2013 no concelho de Loures, e que aparentemente perderam o seu fulgor. Não se compreenderá, ou pelo menos será no mínimo estranho, que estas entidades não se tenham envolvido de igual forma, e com a mesma energia, como se debateram (por exemplo) pelas alterações nos lavadouros públicos, em Ribas de Cima, na freguesia de Fanhões. Até ao momento, sobre a demolição das referidas ruínas, nem uma palavra a favor… ou contra. Há que pensar de facto, nos objetivos destes movimentos, que surgem apenas em determinados contextos. Mas adiante.
Comecemos pelo território: Zona Industrial de Tocadelos.
Julgo que este é um dos grandes erros do PDM de Loures, que continua a perpetuá-lo. Estamos a falar de um local, destinado a indústria, cuja implantação é feita de uma forma urbanisticamente pouco qualificada, numa mancha esquartejada e amarrada a um canal rodoviário regional (ER n.º 374), que não está preparado para receber o tráfego gerado. Além disso, não existe um contínuo lógico, uma vez que entre atividades económicas em funcionamento, encontramos estruturas sem utilização e em abandono. Como se isso não bastasse, esta área é interrompida ainda, por um bairro de génese ilegal (com função habitacional). Nunca existiu aqui, a preocupação da proteção dos diversos enquadramentos existentes, naturais e construídos, a título de exemplo: o miradouro natural do Cabeço de Montachique (que foi outrora um “Posto de Sinais” integrado nas Linhas de Torres) ou o Reduto do Mosqueiro (componente dessa mesma estrutura militar). Ou seja, é imperativo, antes de tudo, proceder à requalificação de toda esta zona.
Voltemos ao que interessa: as Ruínas do Sanatório Albergaria Grandella.
Para começo de conversa, assume-se desde já, que falamos de algo que nunca foi terminado. Há quem avance com a argumentação que não criou “memórias” e como tal, não terá valor enquanto ruína, memória e/ou lugar. Ora, o edifício em si, de facto não teve essa prerrogativa, mas num plano inverso, as ruínas daí resultantes, tiveram-na. As experiências, a identidade e a afetividade, sempre foram conferidas pelas populações mais próximas, nomeadamente daqueles que habitaram, ou habitam, no Cabeço de Montachique. Também os inúmeros visitantes que as visitam, continuam a garantir uma vida, àquilo que alguns afirmam que não terá importância alguma. E podem verificar o inverso disso mesmo (da ausência de “interesse”), em diversos projetos de edifícios abandonados em Portugal e em inúmeras teses de alunos do curso de arquitetura de universidades portuguesas.
Fatalmente, estas ruínas acabam por ser o último garante de uma determinada época histórica, porque embora nunca tenham sido utilizadas para o fim a que se destinavam, são o testemunho mais marcante, atualmente existente, dos diversos sanatórios (muitos foram alterados profundamente) e da atividade ligada a estes. Logo, por representarem as recordações coletivas de uma população, e assinalarem um contexto sócio cronológico (o combate ao surto de tuberculose que atingia proporções epidémicas em toda Europa e Portugal na primeira década do século XX), acabam por se assumir, como um marcador memorial em todo o território.
E finalmente: o objeto arquitetónico.
Focando na componente arquitetónica, não deixa de ser interessante verificar, a forma como a estrutura foi pensada, orientada e projetada, bem como a construção da solução à volta da distribuição dos espaços e das suas funções. O projeto do arquiteto Rosendo Carvalheira (um dos profissionais mais conceituados no Portugal do final do séc. XIX e início do séc. XX), é fortemente influenciado pela arquitetura popular portuguesa, podendo-se observar ainda, no Sanatório Albergaria, a repetição de elementos já utilizados noutros edifícios do mesmo autor, como por exemplo, no Sanatório Santana, na Parede.
O maior destaque encontra-se relacionado com a planta aplicada, agregando vários símbolos de influência maçónica, gerando uma complexidade que suscita curiosidade e a descoberta. Em forma de “U”, verificamos dois corpos retangulares apontados para o miradouro natural do Cabeço de Montachique, que se amarram noutro volume, também ele retangular, que lhe confere a fachada principal do edifício, voltada a Este e para os acessos viários. Contudo, o ex-libris arquitetónico deste projeto, assenta no seu miolo, cujo desenho faz lembrar uma estrela, resultado da convergência das celas (“vilas” mais pequenas, destinadas a aluguer), num único ponto central (onde ficaria a chaminé do sanatório). Esta foi uma proposta objetivamente focada na funcionalidade, suportando-se num conceito de recolhimento, aplicado durante séculos, nos mosteiros e conventos portugueses.
Epilogando, e no seguimento do pensamento de Ruskin e Simmel, as ruínas do Sanatório Albergaria Grandella podem ser classificadas como um testemunho fiel da arquitetura portuguesa da primeira década do século XX, dos acontecimentos históricos desse período, da memória das populações, bem como do movimento sanatorial português em Loures, resultando tudo isto, num valor histórico-cultural que merece ser preservado, aplicando-se assim, sem dúvida alguma, a alínea 1, do artigo 1.º da Convenção de Granada e o Decreto-Lei n.º 309/2009, de 23 de outubro.
Considerando o exposto, tenho a certeza que estou do lado certo da História.
Carlos Costa Rodrigues, Arq. n.º 12599 (OASRS) *
*Licenciado em Arquitectura pela Universidade Lusíada de Lisboa - 2004
*Participação em dossier de candidatura de Núcleo Histórico a Património Mundial, em parceria com a Fórum Unesco Portugal -2004
*Formação complementar em Conservação e Recuperação de Património, e Reabilitação, Patologia e Diagnóstico em Construções e Edifícios.

1 comentário:
Boa tarde.
Enquanto cidadão preocupado com o patrimńio do concelho, fico triste por saber o destino que estão a dar ao Sanatório.
Tenho um conjunto de perguntas que gostaria de lhe colocar relativamente ao que escreveu. De que forma poderei entrar em contacto consigo?
Cumprimentos,
João
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