As Linhas de Torres Vedras, construídas a norte de Lisboa,
na zona saloia de Torres Vedras, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Arruda dos
Vinhos, Loures e Vila Franca de Xira, entre 1809 e 1812, constituem-se como uma
das obras militares mais eficazes da história, uma vez que garantiram um dos
maiores sistemas de defesa efetiva, estendendo-se por mais de 88 quilómetros,
distribuídos por 3 linhas com 152 fortificações.
As estruturas militares (tais como fortes, redutos e postos
de sinais), que constituíam o sistema defensivo de Lisboa denominado como
Linhas de Torres, foram construídos em segredo (pese embora algumas notícias na
impressa inglesa na altura), e como tal, apanharam os invasores Franceses de
surpresa e foram um dos elementos determinantes na derrota das tropas
napoleónicas na Península Ibérica.
Estrategicamente, as Linhas de Torres Vedras, pretendiam garantir que Lisboa não caísse em mãos francesas, ao mesmo tempo que servia de refúgio ao exército anglo-luso e à população, que estava em debandada de outras partes do Reino, devido à política de “terra queimada” implementada. Este sistema, também permitia, em caso de necessidade, o embarque do exército anglo-luso em São Julião da Barra (Oeiras) garantido assim, a fuga do efetivo – falamos aqui da terceira linha, que mais não era que uma garantia de escape, no caso da estratégia não correr conforme o delineado.
Assente sobre o controlo da rede viária em direção a Lisboa,
e aproveitando o relevo desta região, a construção das estruturas militares protegiam
os principais itinerários: a Estrada Real ribeirinha, a partir de Alhandra, e a
Estrada Real que partia de Torres Vedras, com a variante por Montachique e
Mafra e que se cruzavam na zona da Malveira e Venda do Pinheiro.
As fortificações eram por regra de planta poligonal (porque
permitam a colocação de mais artilharia), e articulavam-se entre si, de forma a
que fosse possível avistar os redutos mais próximos, quer à esquerda, quer à
direita. Na sua maioria, tinham capacidade para uma guarnição de 200 a 300
homens e três a seis canhões. Para a comunicação entre as diversas estruturas,
foi implementado um sistema de comunicações óticas composto por onze estações
de sinais, permitindo que uma mensagem transmitida desde o quartel-general de
Wellington, em Pero Negro, pudesse chegar às diversas posições das linhas em
apenas sete minutos, graças a um semáforo.
Tendo em conta os pressupostos definidos, foi com alguma
naturalidade, que o Cabeço de Montachique ganhou protagonismo neste episódio da
história coletiva portuguesa. Por representar um lugar estratégico pela sua
proximidade a muitas fortificações e vias de comunicação importantes, funcionou
aqui, um armazém, que assegurou parte do abastecimento ao exército anglo-luso. Como
tal, na povoação e imediações próximas, podiam-se encontrar vários fortes, como
o Reduto de Montachique [forte n.º 55], o Reduto do Mosqueiro [forte n.º 57], o
Reduto do Moinho da Carambola [forte n.º 59], e o Reduto do Moinho [forte n.º
54], mesmo no coração da aldeia. No topo da chaminé vulcânica, que permitia uma
servidão de vistas excecionais do território, encontrava-se um posto de comando
e de sinais, inserido na linha de comunicação de São Julião/Sonível/serra de
Chipre e Cabeço de Montachique – 2.ª linha, comunicando diretamente com o
telégrafo de Monsanto.
O Reduto de Montachique, fica situado dentro do Parque
Municipal de Montachique, e, portanto, visitável. Foi recuperado no âmbito do
trabalho desenvolvido pela Câmara Municipal de Loures, na Rota História das
Linhas de Torres, e tinha como principal função a defesa do Vale de São Gião e
a estrada real que vinha de Mafra em direção a Lisboa. Encontra-se situado no
topo de um outeiro rochoso, a 273 m de altitude, e podia albergar uma guarnição
de 250 homens, apoiados 2 bocas de fogo, calibre 12.
O Reduto do Mosqueiro, junto ao Casal do Andrade, também foi
recuperado à semelhança do anterior. Construído no topo de uma elevação
rochosa, a 337 m de altitude, defende o desfiladeiro de Montachique, cobrindo o
flanco direito do respetivo vale, dominando a estrada de Mafra a Loures, e
Mafra-Montachique-Freixial, de ligação à várzea de Loures e consequentemente à
cidade de Lisboa. Tinha capacidade para 270 homens e 3 bocas de fogo (de
calibre 12).
O Reduto do Moinho da Carambola, perto da casa a “Bela
Vista”, foi construído a 261 m de altitude, e concebido para uma guarnição de
260 soldados. Encontra-se dentro de uma propriedade privada, murada.
O posto de sinais, situado no topo do Cabeço, na chaminé
vulcânica, estava instalado um posto de sinais, semelhante à réplica que
podemos encontrar na serra do Socorro (Mafra).
Sobre o Reduto do Moinho, em prospeções feitas em 1980, não
foram encontrados indícios da sua presença, mantendo-se apenas no local, um
velho moinho.
Sugestão de Percurso:
Comecemos por estacionar no centro da aldeia (a melhor
localização para o efeito é junto à Escola Básica). Munidos de vontade de
caminhar e respirar ar puro e história, avancemos de imediato para o primeiro
forte: o Reduto do Moinho. Para o alcançar, o melhor é utilizar um aparelho GPS
e percorrer o caminho de pé-posto, que os habitantes de Cabeço de Montachique
utilizavam para entrar no Parque Municipal de Montachique (entretanto o portão
encontra-se fechado). Embora a localização das ruínas desta fortificação sejam
desconhecidas, vale a pena a caminhada até ao moinho velho. Daqui, temos duas
possibilidades, ou voltamos para trás e subimos em direção ao Alto do Andrade
para conhecer o Reduto do Mosqueiro e a localização do Posto de Sinais – tem
uma vista de 360º do território, ou previamente contactamos a gestão do Parque
Municipal de Montachique, e tentamos articular a possibilidade de abertura do
portão existente junto aos campos de futebol, para conhecer o Reduto de
Montachique. Caso esta última opção seja a escolhida, após a visita a esta
estrutura, subimos pela estrada de Ribas até ao Reduto do Mosqueiro e daqui ao
topo do Cabeço – Observatório de paisagem. Do ponto mais alto do concelho de
Loures, conseguimos reparar em muitas outras fortificações, e perceber a estratégia
e as correlações, que tiveram na base deste sistema defensivo.
Depois de contemplar a vista, e respirar os “bons ares” que por aqui existem, - e com alguma sorte utilizar o baloiço colocado pela Junta de Freguesia de Lousa, pode-se começar a realizar a descida, pela estrada regional n.º 374 em direção ao Cabeço de Montachique, com todo o cuidado possível, uma vez que não existem passeios, nem bermas suficientemente largas que permitam descuidos, mais ou menos, programados.
Nota: Não se inclui o Reduto do Moinho da Carambola nesta
sugestão, considerando que o mesmo se encontra em propriedade privada, e como
tal, inacessível – conforme já mencionado.
Faça o download do Panfleto do Percurso Cabeço de Montachique [nas linhas] | AQUI, imprima numa folha A4, em frente/verso, e dobre em 4 partes iguais.
Carlos Costa Rodrigues,
com Rota Histórica das Linhas de Torres,
e SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitetónico.


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