Páginas

Cabeço de Montachique | Nas Linhas de Torres

Mapa das Linhas de Torres | 1874 
Luz Soriano


As Linhas de Torres Vedras, construídas a norte de Lisboa, na zona saloia de Torres Vedras, Mafra, Sobral de Monte Agraço, Arruda dos Vinhos, Loures e Vila Franca de Xira, entre 1809 e 1812, constituem-se como uma das obras militares mais eficazes da história, uma vez que garantiram um dos maiores sistemas de defesa efetiva, estendendo-se por mais de 88 quilómetros, distribuídos por 3 linhas com 152 fortificações.


As estruturas militares (tais como fortes, redutos e postos de sinais), que constituíam o sistema defensivo de Lisboa denominado como Linhas de Torres, foram construídos em segredo (pese embora algumas notícias na impressa inglesa na altura), e como tal, apanharam os invasores Franceses de surpresa e foram um dos elementos determinantes na derrota das tropas napoleónicas na Península Ibérica.


Estrategicamente, as Linhas de Torres Vedras, pretendiam garantir que Lisboa não caísse em mãos francesas, ao mesmo tempo que servia de refúgio ao exército anglo-luso e à população, que estava em debandada de outras partes do Reino, devido à política de “terra queimada” implementada. Este sistema, também permitia, em caso de necessidade, o embarque do exército anglo-luso em São Julião da Barra (Oeiras) garantido assim, a fuga do efetivo – falamos aqui da terceira linha, que mais não era que uma garantia de escape, no caso da estratégia não correr conforme o delineado.


Assente sobre o controlo da rede viária em direção a Lisboa, e aproveitando o relevo desta região, a construção das estruturas militares protegiam os principais itinerários: a Estrada Real ribeirinha, a partir de Alhandra, e a Estrada Real que partia de Torres Vedras, com a variante por Montachique e Mafra e que se cruzavam na zona da Malveira e Venda do Pinheiro.


As fortificações eram por regra de planta poligonal (porque permitam a colocação de mais artilharia), e articulavam-se entre si, de forma a que fosse possível avistar os redutos mais próximos, quer à esquerda, quer à direita. Na sua maioria, tinham capacidade para uma guarnição de 200 a 300 homens e três a seis canhões. Para a comunicação entre as diversas estruturas, foi implementado um sistema de comunicações óticas composto por onze estações de sinais, permitindo que uma mensagem transmitida desde o quartel-general de Wellington, em Pero Negro, pudesse chegar às diversas posições das linhas em apenas sete minutos, graças a um semáforo.


Tendo em conta os pressupostos definidos, foi com alguma naturalidade, que o Cabeço de Montachique ganhou protagonismo neste episódio da história coletiva portuguesa. Por representar um lugar estratégico pela sua proximidade a muitas fortificações e vias de comunicação importantes, funcionou aqui, um armazém, que assegurou parte do abastecimento ao exército anglo-luso. Como tal, na povoação e imediações próximas, podiam-se encontrar vários fortes, como o Reduto de Montachique [forte n.º 55], o Reduto do Mosqueiro [forte n.º 57], o Reduto do Moinho da Carambola [forte n.º 59], e o Reduto do Moinho [forte n.º 54], mesmo no coração da aldeia. No topo da chaminé vulcânica, que permitia uma servidão de vistas excecionais do território, encontrava-se um posto de comando e de sinais, inserido na linha de comunicação de São Julião/Sonível/serra de Chipre e Cabeço de Montachique – 2.ª linha, comunicando diretamente com o telégrafo de Monsanto.

 

O Reduto de Montachique, fica situado dentro do Parque Municipal de Montachique, e, portanto, visitável. Foi recuperado no âmbito do trabalho desenvolvido pela Câmara Municipal de Loures, na Rota História das Linhas de Torres, e tinha como principal função a defesa do Vale de São Gião e a estrada real que vinha de Mafra em direção a Lisboa. Encontra-se situado no topo de um outeiro rochoso, a 273 m de altitude, e podia albergar uma guarnição de 250 homens, apoiados 2 bocas de fogo, calibre 12.

 

O Reduto do Mosqueiro, junto ao Casal do Andrade, também foi recuperado à semelhança do anterior. Construído no topo de uma elevação rochosa, a 337 m de altitude, defende o desfiladeiro de Montachique, cobrindo o flanco direito do respetivo vale, dominando a estrada de Mafra a Loures, e Mafra-Montachique-Freixial, de ligação à várzea de Loures e consequentemente à cidade de Lisboa. Tinha capacidade para 270 homens e 3 bocas de fogo (de calibre 12).

 

O Reduto do Moinho da Carambola, perto da casa a “Bela Vista”, foi construído a 261 m de altitude, e concebido para uma guarnição de 260 soldados. Encontra-se dentro de uma propriedade privada, murada.

 

O posto de sinais, situado no topo do Cabeço, na chaminé vulcânica, estava instalado um posto de sinais, semelhante à réplica que podemos encontrar na serra do Socorro (Mafra).

 

Sobre o Reduto do Moinho, em prospeções feitas em 1980, não foram encontrados indícios da sua presença, mantendo-se apenas no local, um velho moinho. 

 


Sugestão de Percurso:

 

Comecemos por estacionar no centro da aldeia (a melhor localização para o efeito é junto à Escola Básica). Munidos de vontade de caminhar e respirar ar puro e história, avancemos de imediato para o primeiro forte: o Reduto do Moinho. Para o alcançar, o melhor é utilizar um aparelho GPS e percorrer o caminho de pé-posto, que os habitantes de Cabeço de Montachique utilizavam para entrar no Parque Municipal de Montachique (entretanto o portão encontra-se fechado). Embora a localização das ruínas desta fortificação sejam desconhecidas, vale a pena a caminhada até ao moinho velho. Daqui, temos duas possibilidades, ou voltamos para trás e subimos em direção ao Alto do Andrade para conhecer o Reduto do Mosqueiro e a localização do Posto de Sinais – tem uma vista de 360º do território, ou previamente contactamos a gestão do Parque Municipal de Montachique, e tentamos articular a possibilidade de abertura do portão existente junto aos campos de futebol, para conhecer o Reduto de Montachique. Caso esta última opção seja a escolhida, após a visita a esta estrutura, subimos pela estrada de Ribas até ao Reduto do Mosqueiro e daqui ao topo do Cabeço – Observatório de paisagem. Do ponto mais alto do concelho de Loures, conseguimos reparar em muitas outras fortificações, e perceber a estratégia e as correlações, que tiveram na base deste sistema defensivo.



Depois de contemplar a vista, e respirar os “bons ares” que por aqui existem, - e com alguma sorte utilizar o baloiço colocado pela Junta de Freguesia de Lousa, pode-se começar a realizar a descida, pela estrada regional n.º 374 em direção ao Cabeço de Montachique, com todo o cuidado possível, uma vez que não existem passeios, nem bermas suficientemente largas que permitam descuidos, mais ou menos, programados. 

 


Nota: Não se inclui o Reduto do Moinho da Carambola nesta sugestão, considerando que o mesmo se encontra em propriedade privada, e como tal, inacessível – conforme já mencionado. 




Faça o download do Panfleto do Percurso Cabeço de Montachique [nas linhas] | AQUI, imprima numa folha A4, em frente/verso, e dobre em 4 partes iguais. 





Carlos Costa Rodrigues, 

com Rota Histórica das Linhas de Torres, 

e SIPA - Sistema de Informação para o Património Arquitetónico.  

Sem comentários: